A verdade por trás da fosfoetanolamina e a cura do câncer

Durante essa semana, perdi a conta das vezes que recebi esse vídeo muito bem produzido, em formato jornalístico, sobre a fosfoetanolamina. O vídeo, aparentemente realizado pela Associação Brasileira do Consumidor que dá a notícia de que pacientes de câncer têm entrado na justiça para conseguir uma substância com poder de cura do câncer, desenvolvida no instituto de química da USP, em São Paulo.
 
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Segundo o vídeo, a fosfoetanolamina  é o sonho de consumo de toda a pessoa que foi diagnosticada  e/ou está lutando contra um câncer: Trata a doença sem enfraquecer o sistema imunológico, sem deixar sequelas, sem mutilações e sem causar as temidas quedas de cabelo.
O vídeo explica que a fosfoetanolamina, ou fosfo para os íntimos, age nas células cancerosas como marcadores, sinalizando-as para que  o sistema imunológico possa combatê-las.

Parecia perfeito demais para ser verdade! Mandei o vídeo para o meu oncologista perguntando sobre a veracidade do “noticiário”, que imediatamente me respondeu: “Isso é um absurdo, um desserviço! As pessoas são inconsequentes, não se preocupam em dar a informação correta”.
Depois que conversei com o meu oncologista, Dr Fernando Adão, por telefone, pude entender um pouco mais as implicações de divulgar notícias como essas sem uma avaliação da veracidade e das consequências dos fatos.
Somente naquele dia, meu onco havia recebido aquele vídeo de mais de 50 pacientes diferentes! Ele me alertou para o fato de que a tal substância não é remédio. Não tem bula, ninguém sabe qual é dose exata, quais os efeitos colaterais e, portanto, não pode ser prescrita por nenhum médico.
Mesmo que a substância cure o câncer, o médico que prescrevê-la  corre o risco de perder o CRM e ser preso por ato de curandeirismo!
Meu oncologista ainda me deixou presente para o fato do efeito Placebo: Existem pesquisas científicas sérias que comprovam que 40% de pacientes que tomam pílula de farinha não respondem ao tratamento.
No Livro “A cura quântica”, o médico indiano Deepak Chopra, mostra como o corpo é inteligente e tem capacidade de se autocurar.  Ele cita, inclusive, vários exemplos de pacientes de câncer em estágio terminal, desenganados pela medicina tradicional, que foram curados com o auxílio da  medicina ayuverda ou até mesmo sozinhos !
Dr Chopra também explica que muitos restabelecimentos de origem misteriosa, como os casos de remissão espontânea e o uso eficiente de placebos ou “drogas enganadoras”,  acontecem porque em todos esses casos, a consciência profunda parece ter promovido um drástico salto quântico no mecanismo da cura.
E ele questiona em seu livro, porque não consideramos um milagre o corpo soldar um osso partido, mas associamos a cura espontânea do câncer a uma qualidade especial da mente, um profundo desejo de viver, uma perspectiva heroicamente positiva, ou qualquer habilidade rara. No entanto, segundo o autor, todos temos a capacidade de mobilizarmos nossos mecanismos de cura!
Nessa rápida conversa com o meu oncologista, decidi investigar melhor e pude identificar algumas realidades por trás da polêmica da Fosfoetalonamina:
DOS PACIENTES
O desespero de pacientes oncológicos ou pessoas recém diagnosticadas que desejam a cura, e que muitas vezes, tem chances altíssimas de cura, mas abrem mão do tratamento convencional, comprovadamente eficaz em busca de tratamentos alternativos menos sofríveis.
É compreensível, diante do medo causado por um diagnóstico de câncer. E nos casos em que os médicos informam que nada mais podem fazer, é natural que o paciente procure qualquer opção.
 
A Sociedade Americana de Oncologia Clínica estima que 80% dos pacientes recorrem a um tratamento alternativo. Eu mesma, desde que fui diagnosticada, usei a alimentação, prática de atividades físicas, meditação, etc, como coadjuvantes na busca pela minha cura. E acredito que esses hábitos também  são   fundamentais para a manutenção de uma vida saudável.
O risco é quando pessoas com boas chances de recuperação, abrem mão do tratamento-padrão para se arriscar em terapias não comprovadas. O paciente pode perder um tempo precioso de tratamento.
E, nos grupos de discussão na internet, é disseminada a ideia de que a substância deve ser usada sozinha, não junto com tratamentos tradicionais, como a quimioterapia.
Como é o caso do administrador de empresas Oswaldo Luiz Silva Neto, de 61 anos, que o site da revista Época citou, que mora a dois quarteirões do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, na capital paulista, uma referência no tratamento da doença. Mas viajou 240 quilômetros, em direção a São Carlos, no interior do Estado, para buscar ajuda.
Desde que descobriu um tumor de 3,8 centímetros no esôfago, no fim de setembro, Silva Neto vasculha a internet em busca de informações sobre a doença.
Seu médico, na capital, recomendou cirurgia. Com sorte, pode bastar para livrá-lo da doença, já que o tumor não se espalhou. Depois de ler relatos quase milagrosos de gente com câncer terminal que vive anos à base da fosfo, Silva Neto decidiu tentar a sorte.
“Quero tomar esse remédio e evitar uma cirurgia. Enquanto espero marcarem a operação, vou tomando. Se o tumor regredir, posso optar por não fazê-la”, diz.
O médico dele, sua irmã, que é médica, e a mulher, também da área da saúde, não sabiam de sua viagem a São Carlos. Ele sabe que a decisão é controversa.
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ESPERANÇA O administrador Oswaldo Luiz Silva Neto, de 61 anos. Ele espera que a fosfo livre-o de uma cirurgia (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
A revista época também contou a história da analista fiscal Katia Pompilio, de 43 anos, que dirigiu mais de 200 quilômetros, na quinta-feira, de Osasco, onde mora, até São Carlos, com uma liminar da Justiça. Estava autorizada a pegar as cápsulas. Mas não conseguiu. Haviam acabado.
Há um ano, Katia trata de um câncer de mama, seguindo o roteiro reconhecido: cirurgia, químio e radioterapia. Agora, considera parar o tratamento para tentar a fosfo. “Conheço casos de pessoas que pararam o tratamento, tomaram a fosfo e melhoraram”, diz Katia. Ela considera a possibilidade de tentar a químio e a fosfo juntas. “O que você faria?”, indaga, com lágrimas nos olhos.
DO FABRICANTE
A revista época divulgou a fábrica improvisada das cápsulas azuis e brancas, que se tornaram famosas no boca a boca, fica no pequeno laboratório do Grupo de Química Analítica e Tecnologia de Polímeros.
Um único funcionário da USP é encarregado de produzi-las. No início dos anos 1990, a fosfo despertou a atenção do então coordenador do laboratório, o químico paulista Gilberto Orivaldo Chierice, de 72 anos, hoje professor aposentado. “Acho que é uma cura para o câncer”, diz.
Filho de um fazendeiro de Rincão, São Paulo, estudou química na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara. Fez mestrado e doutorado na mesma área, na USP. Nos anos 1970, virou professor da instituição em São Carlos.
Agora aposentado, é dono de uma fábrica de impermeabilizante e de uma empresa que faz enxertos ósseos com um polímero, ambos produtos criados por ele. E entende a gravidade do que faz.
“Eu sabia que estava interferindo em recomendações médicas. Sempre pensei que, mais cedo ou mais tarde, seria preso por exercício ilegal da medicina. Mas, se eu não distribuir o remédio, quem pensaria nos cancerosos?”
Pesquisadores que trabalharam com Chierice não questionam seu caráter. Mas também reconhecem que os estudos são insuficientes. “O professor Gilberto é uma pessoa maravilhosa. Está pensando nos pacientes. Mas são necessários mais estudos”, diz o farmacêutico Adilson Kleber Ferreira.
Ele pesquisou a ação anticâncer da fosfo no Butantan, com animais. “Existem milhares de outras substâncias em teste, com resultados tão bons ou melhores. Conclui.
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POLÊMICO O químico Gilberto Chierice no laboratório de sua empresa. Ele diz ter descoberto a cura do câncer, mesmo sem ter provas  (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
DOS MÉDICOS
A substância não pode ser considerada um remédio porque não foi testada oficialmente em humanos, passo essencial para que um composto em estudo comprove que funciona, é seguro e não tem efeitos colaterais.
Ainda são necessárias várias etapas de estudo para comprovar que ele realmente tem alguma função no tratamento do câncer. A cura seria um passo muito além.
Nunca foram feitos testes clínicos da substância, em um grande número de pacientes, sob o controle de médicos e pesquisadores. Testes assim são fundamentais e exigidos por leis para que um composto seja considerado medicamento. É um padrão internacional.
fosfo não tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária nem pode ser distribuída ou vendida como remédio no Brasil.
Achei muito  interessante esse  infográfico sobre as etapas que uma substância deve passar antes de se tornar remédio que o site da revista época divulgou.

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DA USP
Várias pessoas vinham de outros Estados, como Paraná e Minas Gerais. A procura pela fosfo aumentou desde a distribuição, que estava proibida pela universidade desde junho de 2014, e foi liberada provisoriamente (até julgamento) por uma decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal.

Diante dos transtornos causados pela viralização da notícia via internet, a USP divulgou nota em seu site:

“É compreensível a angústia de pacientes e familiares acometidos de doença grave. Nessas situações, não é incomum o recurso a fórmulas mágicas, poções milagrosas ou abordagens inertes…
Não raro essas condutas podem ser deletérias, levando o interessado a abandonar tratamentos que, de fato, podem ser efetivos ou trazer algum alívio. Nessas condições, pacientes e seus familiares aflitos se convertem em alvo fácil de exploradores oportunistas.
A universidade também afirma não tem capacidade de produzir a substância na escala com que vem sendo solicitada. A reitoria sugere que a Justiça busque a indústria química caso queira obrigar uma distribuição da fosfoetanolamina em grande escala. Não há, pois, nenhuma justificativa para obrigar a USP a produzi-la sem garantia de qualidade”.
Pacientes e familiares na USP em São Carlos, à espera das cápsulas de fosfo. Na quinta-feira, dia 15, logo de manhã, as cápsulas haviam acabado (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Pacientes e familiares na USP em São Carlos, à espera das cápsulas de fosfo. Na quinta-feira, dia 15, logo de manhã, as cápsulas haviam acabado (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
DOS INTERESSES EXCUSOS
Segundo os defensores da Fosfo, ressalvas à falta de estudos da substância são tomadas como uma tentativa da “indústria farmacêutica” de esconder da população a descoberta da cura do câncer, já que a fosfo é bem barata, especialmente se comparada a um ciclo de quimioterapia.
Concordo que a indústria farmacêutica lucra muito com tratamentos de câncer. E eu sei exatamente o preço que se paga para fazer um tratamento contra um câncer. Tal preço, por maior que seja, não é nada se comparado ao sofrimento físico e emocional causado pelos ciclos de quimio, rádio, etc.
Ainda sobre a polêmica da Fosfoetalonamina, tive a brilhante ideia de entrar no site que é divulgado no vídeo da Associação Brasileira do Consumidor: http://www.ongabc.org.br
E me surpreendi com a oferta da instituição aos pacientes que queiram ingressar na justiça para a obtenção da liminar que garanta o uso da fosfo mediante o pagamento da Taxa de adesão de R$ 600,00, e uma mensalidade de R$ 80,00 a qual será paga através de boletos bancários.

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No livro “Anticâncer”,  Dr. David Servan-Schreiber, psiquiatra e  neurocientista, dá uma dica para não cairmos em armadilhas e evitar charlatões que:

  • Se recusam a trabalhar em colaboração com um oncologista e aconselham parar com o tratamento convencional.
  • Propõem um tratamento sobre a eficácia não está provada, mas que apresenta riscos certos.
  • Propõem um tratamento cujo preço é desproporcional em comparação com as provas de sua eficácia.
  • Prometem que sua abordagem vai funcionar com certeza desde que você tenha um verdadeiro desejo de se curar.
Acredito na eficácia de tratamentos alternativos, assim como na capacidade que nosso corpo tem de se autocurar. No entanto,  não abri mão do tratamento tradicional que, pode não ser a coisa mais agradável do mundo, mas comprovadamente cura.
Confesso que se fosse diagnosticada em estágio terminal sem perspectivas de cura através do tratamento convencional (cirurgia, quimio e radio), buscaria tratamentos alternativos sim, mas não antes de pesquisar muito a veracidade das informações.
Tenho aprendido cada dia mais a observar e ponderar diante de promessas milagrosas de cura. De fato, existem muitos interesses e realidades por trás da cura do câncer.

Fontes de pesquisa:
Livro “cura quântica “, Deepak Chopra
Livro Anticâncer , David Servan-Schreiber
www5.usp.br/esclarecimentos-a-sociedade www.epoca.globo.com/vida/noticia/2015/10/fosfoetanolamina-sintetica-oferta-de-um-milagre-contra-o-cancer.html

 

42 Comentários


  1. Oi Patrícia,

    Pede para seu Oncologista me explicar como funciona o placebo em ratos. Pois como ele procurou se informar foram feitos testes em ratos e eles foram curados. Acho que as pessoas precisam incentivar em vez de criticar.


  2. Minha teoria a respeito desses medicamentos milagrosos é a seguinte : A equipe que cuida de mim no Institut Curie, é formada por médicos que se interessam pela cura do câncer e pelo bem estar dos pacientes. São cancerologistas, cirurgiões, enfermeiros especializados, que estão engajados nisso há anos. Porque pensar que todos foram estimulados pelo dinheiro fácil oferecido pela indústria farmacêutica?
    O único método que pode curar ou redimir ainda é o comprovado. QUIMIO, CIRURGIA E RADIO. E, no nosso caso – câncer de mama, alguns tipos como o meu, necessitam do bloqueador de hormônios durante 5 anos…até 10 em alguns casos. Enquanto nada ficar provado, continuo no protocolo determinado pelos médicos.
    *Troquei a ordem do tratamento porque o meu começou com quimio.


  3. É verdade! Acredito muito no poder de alguns tratamentos alternativos. E desde que fui diagnosticada pesquiso e faço uso de um montão deles. Mas nunca cogitei em abandonar o tratamento tradicional, principalmente, em casos que existem prognostico de cura essa ainda e a melhor opção. beijoca


  4. Adorei… Muito bom seu post… Esclarecedor… Infelizmente as pessoas abandonam os tratamentos médicos acreditando 100% em alternativo .
    Um beijo

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