O que Adriele Silva, atleta com amputação bilateral, me ensinou sobre superação.

A história de superação hoje é da minha amiga do peito, Adriele Silva. Tri-alteta com amputação bilateral

Adriele não teve câncer  de mama. No entanto, ela foi o meu “anjo”, em um momento em que eu estava perdida e precisava de direção. Eu tinha sido diagnosticada com câncer recentemente e tinha acabado de fazer mastectomia com esvaziamento axilar. 
Estava me sentindo fraca, física e emocionalmente. Não conseguia movimentar o braço operado, sentia uma dor constante no seio. E psicologicamente me sentindo mutilada por ter “perdido” o seio. Como se não bastasse, ainda tinha que lutar contra um câncer 


Foi quando me deparei na internet com a Adriele. Uma mulher que nadava, corria, andava de bicicleta, e ainda por cima andava de patins, com um pequeno detalhe: Sem as duas pernas! E tudo isso, sem tirar o sorriso do rosto!

 

 

Gosto de gente sorridente, especialmente, quando a vida dá motivos para chorar. Dali em diante, passei a seguí-la e me inspirar na força dela.
Mesmo durante o tratamento de quimioterapia, segui praticando alguns esportes, e me lembro que quando o meu seio doía ou me incomodava quando praticava alguma atividade física, eu dizia para mim mesma: “Deixa de ser fresca! A Adriele faz isso melhor que você, sem as duas pernas, e com um sorriso no rosto! Vai em frente!”
Por isso, hoje fico muito feliz em partilhar com vocês a linda história de vida e de superação de uma de minhas musas inspiradoras. E especialmente, dividir as coisas que “ela tem aprendido” desde que precisou superar a amputação de suas pernas.


 
 
Das coisas… : Você poderia se apresentar?
Adriele: Sou a Adriele Silva, nasci e moro em Jundiaí, São Paulo, solteira, moro com minha família e ultimamente gosto muito de aproveitar a vida.


Das coisas… : O que aconteceu? Como você perdeu as pernas?
Adriele: Dia 30 de outubro de 2012, tive uma infecção no rim (piélonefrite), essa infecção se deu por conta de um cálculo renal que entupiu o canal entre o rim e a bexiga. Houve também uma negligência em meu atendimento, onde fez com que meu quadro se agravasse, a infecção generalizou-se e ocorreu o choque séptico (infecção generalizada, junto a outras consequências, como insuficiência respiratória e pressão cardíaca muito baixa, isso fez com que as extremidades do corpo ficassem sem circulação de sangue e veio a necrose dos pés, das pontas de alguns dedos das mãos e alguns pontos no cérebro.

Das coisas… : O que pensou / sentiu quando recebeu o diagnóstico?Adriele: No vigésimo dia de coma eu fui acordada pelos médicos pois a operação das amputações não poderia mais ser adiada, então eles me acordaram para me comunicar de que iriam me operar naquele momento, apesar da minha família me dizer que eu estava em coma nos dias anteriores eu me lembro de algumas cenas, que segundo eles eu não poderia lembrar pois estava em coma. 
Enfim, há coisas que não conseguimos explicar até hoje. Em alguns momento eu me lembro de ter visto meus pés escuros, já necrosados e eu sabia que um pé daquela cor estava necrosado, e quando isso acontece não tem outra solução a não ser amputar, e foi assim. 
Os médicos me comunicaram e eu dei um pequeno ok com os olhos, já que naquele momento a única coisa que conseguia fazer era mexer os olhos, estava com a traqueostomia. Havia perdido o movimento de todos os músculos e não conseguia me expressar de nenhuma forma, mas de certa forma acredito que Deus me tranquilizou muito bem em relação a como eu iria me sentir. 
Em momento algum me desesperei, não tinha ideia do que estava me acontecendo comigo ao certo, sabia apenas que eu estava muito doente e que meu estado era muito grave, sabia que o que menos importava naquele momento eram meus pés.

 
 


Das coisas… : O que aconteceu depois disso?
Adriele: Após a amputação que foi no dia 20 de novembro de 2012, eu ainda continuei na UTI por cerca de 30 dias, pois a infecção continuava ainda muito forte, nesse período fiz diversas transfusões de sangue, hemodialises, tive duas paradas cardio-respiratórias, os rins, fígado e pulmões de certa forma estavam sem funcionar, todos funcionavam apenas pela ajuda dos aparelhos. 
Até que , próximo ao dia 13 de dezembro eu comecei dar sinais de melhoras e os médicos só iriam me liberar para o quarto quando eu não tivesse mais febre, pois as febres eram constantes, 24h por dia. 
No dia 18 de dezembro,graças à Deus e a tantas orações, eu sai da UTI, fui para um leito normal. A infecção já tinha passado, mas eu continuei com o respirador mecânico. Meus pulmões ficaram muito debilitados e foi difícil deixar de usar o respirador, mas a cada dia que passava no quarto eu ia melhorando, já recebia mais visitas, isso me ajudou muito, já que as visitas na UTI eram bastante restritas. 
Passei o natal e ano novo daquele ano dentro do hospital, foi o pior final de ano para mim e minha família, mas era para um bem necessário. Logo tirei a sonda de alimentação e o respirador, daí a melhora foi imensa.
No dia 4 de janeiro tive alta e saí do hospital com meus pais. Essa foi uma sensação que não consigo explicar até hoje! Fiquei dois meses sem ver o céu, sem ver o sol, longe da minha casa, só quem passou por algo igual pode ter uma ideia de tudo isso.
 

Das coisas… : Como foi a sua recuperação? Quanto tempo levou?

Adriele: Logo que fui para o quarto já comecei a fazer fisioterapia para recuperar os movimentos do corpo, para recuperar a voz, melhorar a força dos pulmões e também reaprender a comer. 
Nunca reclamei de nada, pois da mesma forma que a infecção veio devastadora, minha recuperação também foi incrível, cada dia a melhora era super visível, melhorei super rápido, tanto que os médicos e minha família se surpreenderam de como eu havia me recuperado tão rapidamente. 
Ninguém esperava de que fosse dessa forma. E a única coisa que pensava era “preciso me esforçar para ficar bem rápido, pois minha família já sofreu muito por mim, preciso mostrar para eles que estou bem e trazer um pouco de felicidade”. 

 

 

 

Das coisas… : Quando o esporte entrou na sua vida?

Adriele: Em fevereiro, fui procurar os esportes, pois sabia que a recuperação seria muito mais rápida se eu estivesse praticando alguma atividade física. Ainda na cadeira de roda, comecei fazer a natação e atletismo, além de passear com minhas amigas e minha família também.
 
 
 


Das coisas… : Você se sentiu envergonhada pela sua nova condição?

Adriele: Em momento algum me importei em sair na rua sem pés, e até mesmo na cadeira de roda. Fui ao shopping, restaurantes, barzinho, parque, zoológico, até na minha formatura fui de cadeira de roda. Confesso que a emoção foi para todos, minha família, amigos da faculdade, professores e todos que estavam lá.


 
 
 
 


Das coisas… : Qual foi o período mais difícil?

Adriele: Costumo dizer que eu mesma me surpreendi comigo. Pois apesar de tudo que passei, me recuperei muito bem, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Mas sem dúvida houveram muitos dias ruins. Confesso que até hoje tenho meus dias ruins, e acredito que isso será para toda a vida. Mas os primeiros seis meses depois da alta foram os piores… Muita coisa aconteceu na minha vida pessoal, profissional, amorosa, minhas amizades, minha família. De repente tudo se transformou e sem dúvidas aguentar toda essa mudança não é para qualquer um.


Das coisas… : Você sofreu ou sofre algum tipo de preconceito por conta de ser amputada?

Adriele: Exatamente preconceito ainda não, pelo menos não fiquei sabendo. Tive apenas um episódio onde uma infeliz de uma atendente de banco me faltou com respeito. Eu só não fui “dar na cara dela”, pois eu ainda estava muito debilitada na cadeira de rodas e sem voz, mas como eu disse, ela é uma infeliz, só fiquei brava na hora. Eu não ia deixar que aquela mulher interferisse na minha vida. Passei por tanta coisa que não iria ser uma atendente mal humorada que me faria mal.


Das coisas… : Como está sua vida hoje? O que mudou ?
Adriele: Apesar de todas as mudanças, acredito que minha vida mudou para melhor. Hoje me sinto mais feliz, cuido mais da minha vida e do meu corpo. Deixei uma carreira de onze anos de lado para me dedicar aos esportes. Pretendo me profissionalizar nesta área, como atleta e profissional.

 


Das coisas… : Quem era a Adriele antes da amputação? E quem é a Adriele hoje?
Adriele: Sempre fui a mesma Adriele, mas como algumas pessoas já me disseram, eu apenas melhorei o que eu já tinha de bom. Melhorei meu jeito de ser, de pensar, de enxergar o mundo. Melhorei o modo como eu trato as pessoas. Enfim, tudo que acontece comigo e ao meu redor estão em constantes mudanças, para melhor!!!
 


Das coisas… : Que orientações você daria para uma pessoa que está passando por um momento muito difícil, e que necessite de superação ?

Adriele: É um pouco difícil dizer isso, até por que cada caso é um caso, nenhum caso é pior ou melhor do que o outro. Momentos difíceis na vida, todos nós temos, como também temos muitos momentos de felicidades, e o único responsável por nossa felicidade somos nós mesmos. Agradeço à Deus todos os dias por estar aqui, e viva! Estar com minha família! Por ter tido uma nova oportunidade! Pois sei que infelizmente nem todos podem ter as mesmas oportunidades que eu estou tendo. 
 
Devemos agradecer sempre. E saber que a vida é o maior presente que alguém pode ter. E se ainda estamos aqui vivos é porque temos o dever de continuar e da melhor maneira possível! Somos privilegiados! Então é isso: vamos viver intensamente, fazer coisas boas, que nos deixem felizes, pois o dia ruim ele sempre vai existir, mas o novo amanhecer também sempre existe, e ele por si só já é motivo para muita felicidade.



Das coisas… : Quais seus planos para o futuro?

Adriele: Como mencionei, pretendo me dedicar aos esportes como atleta e profissional da área. Tenho muitos desejos, um deles é seguir no paratriathlon. E um big sonho é realizar a prova do IronMan.


Das coisas… :  Quer dizer mais algo que eu não tenha perguntado.

Adriele: Só um pensamente que tive aqui para fechar… 

“Conforme o tempo passa vamos descobrindo o verdadeiro significado da vida, e nossa verdadeira missão aqui na Terra. De que tudo que nos acontece tem um propósito. E muitos anjos vão aparecer em nosso caminho para nos ajudar com a missão. 
Vamos descobrindo que a missão é tão grande, que em muitos momentos iremos ficar apreensivos e pensando se daremos conta dela. Afinal, somos simples mortais. Descobrimos que possuímos uma luz interna que brilha mais que qualquer estrela, e que essa luz nada mais é do que esperança para outras pessoas que tanto precisam. E esse é o significado da vida, levar vida para quem precisa de Vida!!!”
 
 

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